Preso por ligação com PCC assinou contratos de R$ 141 milhões com governo de Caiado em Goiás

À esquerda, Ronaldo Caiado e, à direita, Adair Moreira, preso pela Polícia Civil - Fotos: Brenno Carvalho e Polícia Civil/SP

Dos 12 contratos identificados ao longo dos últimos 25 anos, quatro permanecem vigentes e foram assinados durante a gestão de Ronaldo Caiado

O empresário Adair Meira, preso na semana passada em Goiânia durante operação conjunta das polícias civis de Goiás e São Paulo por suspeita de ligação com um esquema de lavagem de dinheiro associado ao PCC, mantém contratos milionários firmados durante a gestão do governador Ronaldo Caiado em Goiás. A Fundação Pró-Cerrado, presidida por Meira, possui atualmente quatro contratos ativos com o Governo de Goiás que somam R$ 141.509.831,63, assinados entre 2021 e 2025 para prestação de serviços terceirizados.

As investigações apontam que Meira teria atuado como um dos principais interlocutores de João Gabriel de Mello Yamawaki, preso em 2024 e identificado pela Polícia Civil de São Paulo como operador do 4TBank, instituição apontada como ligada à facção criminosa. Conversas obtidas a partir de celulares apreendidos teriam revelado negociações envolvendo movimentação de recursos considerados suspeitos.

Segundo relatório policial, Meira utilizaria empresas e entidades ligadas a ele para misturar recursos lícitos e ilícitos, em um suposto esquema de lavagem de dinheiro. A defesa do empresário nega qualquer irregularidade e afirma que ele não possui vínculo com organizações criminosas.

Entre as instituições mencionadas pela investigação, Meira permanece oficialmente apenas na presidência da Fundação Pró-Cerrado, entidade voltada à educação, à “preservação do Cerrado” e ao “oferecimento de formação técnico-profissional a jovens em situação de vulnerabilidade”. Outras duas entidades citadas, a Fundação Sagres e a Renapsi, também foram criadas por ele, embora atualmente não estejam sob sua presidência, segundo informações das próprias organizações e registros da Receita Federal.

Documentos societários, porém, indicam que Meira ainda mantinha relação com a Renapsi em 2025. Em ata registrada naquele ano, ele aparece como “membro associado” da instituição. Já em documento datado de junho de 2023, o empresário assinou uma ata utilizando endereço eletrônico vinculado à Fundação Sagres.

A Fundação Pró-Cerrado presta serviços à Secretaria de Economia de Goiás, fornecendo mão de obra terceirizada, incluindo auxiliares administrativos, motoristas e operadores de call center. Levantamento em registros públicos aponta que a entidade mantém contratos com o governo estadual há pelo menos 15 anos. O primeiro acordo entrou em vigor em fevereiro de 2010.

Dos 12 contratos identificados ao longo dos últimos 25 anos, quatro permanecem vigentes e foram assinados durante a gestão de Ronaldo Caiado. Dois contratos celebrados em 2021 e um firmado em 2022 tiveram os prazos prorrogados até o segundo semestre deste ano. Outro acordo foi assinado em novembro de 2025 com validade de um ano. Todos tratam da prestação de serviços terceirizados.

Após a prisão de Meira, a Fundação Pró-Cerrado informou, em nota, que “não é alvo de qualquer investigação” e declarou que o empresário foi afastado temporariamente das funções por “medida de precaução e governança”. A entidade afirmou ainda acompanhar o caso.

O Governo de Goiás informou ter aberto uma verificação sobre os contratos mantidos com a fundação. Em nota, afirmou que a prisão de Meira não possui relação com a administração estadual nem com os contratos celebrados pelo estado, mas declarou que a Controladoria-Geral irá analisar os acordos por “zelo com o interesse público”.

A gestão estadual também afirmou que não possui atribuição para controlar atividades privadas de empresas e entidades contratadas, cabendo ao governo apenas contratar conforme a legislação e fiscalizar a execução dos serviços. A Polícia Civil de São Paulo informou que a nova fase da investigação deverá analisar os contratos firmados entre o governo goiano e entidades ligadas ao empresário para verificar possíveis indícios de lavagem de dinheiro.

Por meio de nota, Ronaldo Caiado declarou que a relação contratual com a entidade existe desde 2004 e afirmou que não houve denúncias capazes de justificar investigação durante sua gestão. O ex-governador Marconi Perillo também disse ter conhecimento das empresas ligadas a Meira, mas afirmou que “jamais ouviu quaisquer ilações ou rumores a respeito” de possíveis irregularidades e declarou que não abriu procedimentos de apuração porque “não havia suspeita”.

A investigação que chegou ao nome de Adair Meira ganhou força em 2024, após mensagens extraídas de celulares apreendidos durante a Operação Decurio. A Polícia Civil paulista passou a apontá-lo como possível operador de lavagem de recursos para o PCC e articulador da infiltração da facção em estruturas públicas paulistas.

Segundo os investigadores, o esquema funcionaria por meio da emissão de boletos pagos por empresas ligadas a Meira. Os valores seriam direcionados à 4TPag, razão social do 4TBank. Depois, João Gabriel sacaria os recursos e devolveria o dinheiro em espécie ao empresário.

A polícia também afirma que recursos eram transportados entre estados com uso de aeronaves fretadas e helicópteros em deslocamentos entre São Paulo, Brasília e Palmas. O relatório cita diálogos mencionando taxas de operação e fretamentos aéreos com valores superiores a R$ 18 mil como “indício da consumação desse fato”.

Os investigadores sustentam ainda que Meira exerceria controle direto sobre as movimentações financeiras, tendo “grande poder de mando” sobre os valores operados. Em uma das mensagens atribuídas ao empresário e citadas pela investigação, ele orienta: “Neste Momento 3k (3.000). Nada mais. A não ser que eu combine com vc.”

De acordo com a polícia, a Fundação Pró-Cerrado, a Fundação Sagres e a Renapsi teriam sido utilizadas para circulação dos recursos investigados. O relatório descreve um “padrão detectado” em que boletos emitidos pela 4TBank eram distribuídos entre CNPJs ligados a Meira. Depois, os valores seriam sacados e devolvidos em dinheiro.

Mensagens obtidas pela investigação mencionam pagamentos e transferências envolvendo contas da Fundação Sagres e da Renapsi. A Sagres atua nas áreas de educação, rádio, televisão, serviços digitais e treinamento profissional. Já a Renapsi desenvolve programas voltados à inserção de jovens no mercado de trabalho.

O relatório policial afirma ainda que as transações identificadas não possuíam motivação operacional legítima e não estavam relacionadas a projetos ou prestação de serviços, servindo apenas para “dificultar a rastreabilidade da real origem do dinheiro”.

Em notas separadas, Fundação Sagres e Renapsi afirmaram que não são alvo da investigação. A Sagres declarou compromisso com a transparência e informou que Adair Meira não integra seu conselho estatutário. Já a Renapsi afirmou que o empresário não ocupa cargos de gestão nem possui relação administrativa com a entidade, acrescentando que suas parcerias com o poder público seguem critérios de fiscalização e transparência.

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Uma resposta

  1. Ronaldo Caiado você e Ciro Nogueira e toda extrema direita são originários da ARENA, PDS e PFL mudaram as siglas mais a prática de fazer política é a mesma com muita corrupção.

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