Já entra pelo sexto dia a greve de fome dos imigrantes detidos em uma prisão privada que opera para o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) em Newark, estado de Nova Jersey.
Em apoio à sua luta contra os maus tratos e pelos direitos, manifestantes vêm se mantendo nas imediações, apesar da truculência dos agentes. Na segunda-feira, agentes mascarados do ICE chegaram a aplicar spray de pimenta no senador estadual democrata Andy Kim.
A instalação Delaney Hall do ICE é operada pelo Geo Group, uma das maiores empresas privadas de prisões dos EUA. Segundo ativistas e detentos, entre 300 e 400 detidos participam da greve, exigindo melhora na alimentação, ventilação e cuidados médicos – e que seus processos de legalização da imigração prossigam.
A greve de fome, de trabalho e os protestos ocorrem enquanto o governo Trump continua sua cada vez mais impopular campanha de deportação em massa. Uma carta dos imigrantes detidos foi publicada por advogados e ativistas na manhã de terça-feira.
“Estamos detidos, em greve de fome, exigindo direitos ao devido processo e a melhoria das condições. Não somos criminosos. Somos pessoas que entram [na instalação] com um histórico limpo. Pagamos nossos impostos. [Somos] Pais. Mães. Cônjuges de cidadãos com petições existentes”, relatou ao jornal The Guardian um grevista recém liberado e que se reuniu com advogados e ativistas solidários aos imigrantes.
“Luis” disse ter sido detido pelo ICE durante um comparecimento de rotina às autoridades de imigração. O que era incomum para pessoas que têm um processo legal no sistema de imigração, mas se tornou uma prática cada vez mais usada sob o segundo mandato de Trump. Ele estava preso no Delaney Hall há três meses e meio.
“Se nos libertassem, não geraríamos lucro para esse negócio”, disse Luis, referindo-se ao Geo Group. Suas mãos tremiam enquanto falava, mas ele contou com firmeza, registrou o Guardian. “Se vamos ficar detidos por meses para que essa empresa possa lucrar, eles deveriam pelo menos oferecer um ‘serviço’ melhor”, disse “Luis”.
Já a empreiteira privada jura que presta um serviço quase cinco estrelas e se disse “orgulhosa” do papel que tem desempenhado “por 40 anos para apoiar a missão de aplicação da lei” do ICE.
O senador Kim acompanhou a governadora Mikie Sherrill na tentativa de entrarem na instalação. Já tendo estado ali outras vezes, ele declarou que as condições na prisão eram “desumanas”.
MANIFESTANTES NÃO ARREDAM PÉ
Como nas noites anteriores, os manifestantes não arredaram pé, com repetidos confrontos com os agentes anti-imigração e não faltou sequer o uso, contra um ativista que correu, de uma arma de choque elétrico, um taser, com o disparo o atingindo nas costas e o derrubando sobre as pedras.
Os agentes o pegaram e o carregaram para dentro da instalação, enquanto empurravam e ameaçavam pulverizar outros que estivessem em seu caminho. Na confusão, pelo menos sete jornalistas no local foram agraciados com spray de pimenta.
O atual chefão do Departamento de Segurança Interna (DHS), Markwayne Mullin, acusou os democratas de “espalharem difamações” sobre o ICE e negou a existência da greve de fome.
Pelas redes sociais, Mullin asseverou que os detentos “recebem três refeições por dia, são avaliados por nutricionistas certificados e recebem água limpa, roupas, roupas de cama, chuveiros, produtos de higiene e cuidados médicos completos”. “Imigrantes ilegais também têm acesso a telefones para se comunicar com seus familiares e advogados”, acrescentou.
Mas, segundo os ingratos, a comida servida tem até vermes, há má ventilação, infraestrutura deficiente, surtos de doenças e demora no atendimento médico. Como em outros centros de detenção privados do ICE em todo o país, os detentos que realizam trabalhos de cozinha, limpeza e lavanderia, recebem apenas 1 dólar por hora.
“As condições eram ruins o suficiente para pessoas perderem a gravidez. Foram graves o suficiente para iniciar uma infestação de piolhos, para ter uma cepa de gripe que tem circulado sem tratamento. Foi isso que fez as pessoas entrarem em greve”, disse Amy Torres, diretora executiva da New Jersey Alliance for Immigrant Justice.
“CAMPO DE CONCENTRAÇÃO”
Coincidentemente, a publicação de um vídeo esta semana, pela Deutsche Welle, sobre um imigrante colombiano, Bryan Rayo Garzón, que se suicidou no cárcere do ICE no ano passado, levou o presidente Gustavo Petro a afirmar que “ele morreu em um campo de concentração dos EUA”.
“Um jovem colombiano cometeu suicídio em um centro de detenção do ICE administrado pelo governo dos EUA. Ele queria ligar para a mãe, mas não foi permitido. Ele escolheu o suicídio”, escreveu Petro em sua conta no Twitter. Garzón morreu em 8 de abril de 2025, em um centro de detenção no Condado de Phelps, Missouri.
Petro também pediu à sua Ministra das Relações Exteriores, Rosa Villavicencio, que tomasse medidas diplomáticas em relação ao incidente. “O Ministério das Relações Exteriores da Colômbia deve apresentar um protesto formal, e o governo dos EUA deve refletir sobre como sua política de imigração está matando americanos e latino-americanos.”
O vídeo mostra Rayo, de 31 anos, isolado em uma cela. De acordo com a investigação da Associated Press publicada pela DW, o jovem apresentava febre, Covid-19 e ansiedade. “Ele pediu apoio psicológico e uma ligação telefônica para sua mãe, mas foi ignorado. Horas depois, ele foi encontrado inconsciente em sua cela. Seu caso destaca uma onda alarmante de suicídios em centros de detenção de imigrantes nos Estados Unidos.”
O ICE alega que Rayo teria sido preso após supostamente cometer fraude com cartão de crédito e, um ano antes, por furto em loja. Desde que Trump retornou ao poder, pelo menos 51 migrantes morreram sob custódia do ICE: 33 em 2025 e 18 somente neste ano, de acordo com dados da agência de imigração. De acordo com a AP, quase um quinto das mortes ocorridas entre 2025 e 2026 foram por suicídio.











