Para o professor Ildo Sauer, coordenador do projeto, “esta é a confirmação de que a ciência básica pode e deve resolver os problemas da sociedade”
Nesta terça-feira (30) o Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP inaugurou uma usina de escala industrial que transforma resíduos orgânicos em energia e biometano. Além do biogás, a usina produz também biofertilizantes.
ECONOMIA CIRCULAR
O projeto é um marco tecnológico para o país, operando como uma unidade laboratorial em escala industrial e comercial que materializa o conceito de economia circular. Para o professor Ildo Sauer, coordenador do projeto, “esta a confirmação de que a ciência básica pode e deve resolver os problemas da sociedade”.
Ele defendeu o conceito de que o campus da USP pode se transformar num laboratório que produza soluções concretas para os desafios da sociedade. O professor destacou que esta meta permeia os debates no IEE há muito tempo.
A usina inaugurada demonstra a viabilidade técnica e ambiental de converter resíduos da cadeia alimentar e urbanos em recursos estratégicos, como energia elétrica, térmica, biometano (para uso veicular ou injeção em rede de gás) e biofertilizantes.

Atualmente a usina pode processar 25 toneladas de resíduos orgânicos por dia, com capacidade licenciada para 43,5 toneladas por dia, operando a usina converte materiais descartados da cadeia alimentar em eletricidade, biometano e insumos agrícolas.
BIODIGESTÃO
A usina utiliza um pacote tecnológico modular para tratar resíduos provenientes do campus da USP e de instituições parceiras, como atacadista de alimentos, indústrias alimentícias e restaurantes. O processo de biodigestão gera, por tonelada de resíduos orgânicos, 180 Nm³ de biogás, com 50 a 65% teor de metano, que tem duas alternativas de uso: gerar de 166 a 200 kWh de eletricidade ou disponibilizar de 90 a 117 m3 de biometano, para uso veicular ou injeção na rede de gás.
Além da geração elétrica, que já alimenta a rede da universidade e o Sistema Interligado Nacional (SIN), a usina concluiu a instalação de sua unidade de refino. Esta etapa separa o biogás em biometano e CO2, permitindo o abastecimento de frotas de veículos (carros, ônibus e caminhões) movidos a Gás Natural Veicular (GNV) em uma estação instalada dentro do campus. A iniciativa demonstra a viabilidade de substituir combustíveis fósseis por alternativas de baixo carbono em frotas públicas e privadas.
Os pesquisadores explicam que aproximadamente 20% dos resíduos são convertidos em biogás e os 80% restantes são um subproduto líquido, conhecido como digestato, que está sendo reaproveitado como biofertilizante. Pesquisas conduzidas em parceria com a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta) testam a eficácia do composto no cultivo de cana-de-açúcar, além de estudos internos para aplicação na produção de alface em horta e hidroponia.
BENEFÍCIO PARA CIDADES
O modelo é escalável e está apto a ser adotado por grandes municípios e indústrias, oferecendo uma solução robusta para o desafio da gestão de resíduos sólidos. Em seu discurso, o professor Ildo Sauer afirmou que qualquer cidade poderá adotar o sistema que adota a tecnologia circular na solução de saneamento e na produção de biofertilizantes. “Em todo o estado podem ser instaladas 600 dessas unidades e cerca de 3 mil em todo o Brasil”, afirmou o vice-diretor do IEE.
Segundo o pesquisador, o projeto não apenas provê energia limpa, mas também disponibiliza biofertilizantes de alta qualidade, apoiando diretamente a produção de alimentos e fechando o ciclo produtivo com foco na sustentabilidade. Ele transforma o passivo ambiental de grandes centros urbanos e da cadeia alimentar em insumos produtivos. “Agora podemos integrar a cadeia do gás, a cadeia elétrica à cadeia do saneamento pra recuperar energias e criar fertilizantes. Nosso gás metano substitui gasolina, diesel e etanol e outros combustíveis”, afirmou o coordenador do projeto.
Conheça o projeto
Ildo Sauer deu como exemplo o próprio campus da USP. “A conversão da fração orgânica, a começar pelos resíduos dos nossos restaurantes e nas nossas circunvizinhanças permite economias significativas com as despesas para se desfazer dos resíduos que são levados para aterros sanitários.
AJUDA DA PETROBRÁS
“Isso permite”, prosseguiu o professor, “não só economizar esses valores como liberar a fração não orgânica, não biodigerivel para reciclar e aproveitar em valorização, que é a próxima etapa do projeto, com a possível ajuda da Petrobrás, para transformar esses resíduos em óleos leves que podem ter diversos usos”.
Ele destacou a importância do projeto para a solução dos desafios das cidades. “Desde a revolução industrial para cá, as indústrias cresceram, a infraestrutura cresceu, a aglomeração urbana trouxe a questão dos resíduos que transformaram-se em graves problemas. Agora podemos integrar a cadeia do gás, a cadeia elétrica à cadeia do saneamento para recuperar energias e criar fertilizantes”, afirmou Ildo Sauer. “Nosso gás metano substitui gasolina, diesel e etanol e outros combustíveis”, completou.
CERIMÔNIA CONCORRIDA
A cerimônia de inauguração da usina contou com a presença de diversas autoridades, pesquisadores, estudantes, professores da USP, além de parlamentares, gestores públicos e representantes de empresas privadas parceiras do projeto. Estiveram presentes os deputados Ricardo Galvão e Arnaldo Jardim, a Secretária do Meio Ambiente de São Paulo, Natália Resende, o Ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, o professor José Goldemberg, o diretor do IEE-USP, Tercio Ambrizzi, a vice-reitora da USP, Liedi Légi Bariani e o ex-reitor Carlos Gilberto Carlotti Junior.

SÉRGIO CRUZ











