Presidente do PL não é parlamentar mas destinou R$ 119 milhões em emendas. Flávio acha tudo natural. O político terá que devolver o dinheiro público desviado
Que o bolsonarismo é sinônimo de corrupção – além de traição à pátria – já é de domínio público. Mas o que está acontecendo neste momento passa de todos os limites. Descobre-se que o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, sem ser parlamentar, estava definindo valores e destinos de emendas parlamentares e Flávio sai em defesa do criminoso.
O ministro do Supremo Tribunal federal (STF), Flávio Dino, relator do inquérito que investiga irregularidades com as emendas, evidentemente, tomou as medidas cabíveis. Suspendeu as decisões tomadas por Valdemar e bloqueou bens no valor até o limite de R$ 119,2 milhões, quantia efetivamente paga pelo poder público.
Diante dessa aberração com o dinheiro do contribuinte, não poderia ser outra a medida tomada pelo STF. Mas, eis que o senador Flávio Bolsonaro, aliado do presidente do PL, ficou indignado e saiu esculhambando a Polícia Federal e em defesa das irregularidades cometidas por Valdemar Costa Neto.
“Lamentável ver a PF atuando de forma seletiva para constranger um adversário político do atual governo”, escreveu na sexta-feira (10) Flávio em seu perfil do X. O senador, que considerava normal a rachadinha em seu gabinete quando era deputado estadual e que acha mais natural ainda pegar dinheiro roubado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, defendeu as irregularidades de Valdemar.
Para Flávio, o desvio de emendas por Valdemar, que não pode definir emendas, é perfeitamente regular. “Como presidente do maior partido do Brasil, é natural que ele atue politicamente junto a deputados federais, em especial os do próprio PL”, escreveu nas suas redes sociais. Segundo ele, as rachadinhas também eram normais.
O senador acha certo desviar dinheiro público para fins particulares. Ele fez críticas à autoridade policial por fazer o seu papel no combate a esses desvios. “A Polícia Federal, que diz não ter efetivo, nem recursos para investigar as denúncias contra Lulinha, filho do presidente Lula, mais uma vez mobiliza recursos para atacar adversários do presidente. Essa perseguição precisa parar”, declarou. Molestar o filho do presidente Lula é que seria perseguição política, afinal nada há contra ele.
O fato é que Flávio já está com muita coisa para explicar e deveria evitar se associar a mais esses crimes de Valdemar. Ele devia se concentrar em dar – e não deu até agora – explicações sobre os R$ 61 milhões que recebeu do Banco Master para financiar o filme de seu pai e a conspiração de seu irmão nos EUA contra o Brasil.
Precisa explicar também suas relações íntimas com políticos que estão presos no Rio de Janeiro por ligações com o Comando Vermelho, maior facção criminosa do estado. Todos esses políticos, entre eles o ex-deputado Rodrigo Bacellar e o ex-vereador TH Joias, estão presos por ajudarem o CV.
Em suma, já não são apenas as suas ligações com as milícias e grupos de extermínio, como o fato dele ter homenageado o pistoleiro Adriano da Nóbrega, chefe da milícia de Rio das Pedras e assassino profissional, as evidências apontam para um conluio direto dele com facções criminosas. O senador já está bastante enrolado para sair em defesa do roubo de emendas por Valdemar Costa Neto.
Histórico
A Polícia Federal informou que Valdemar Costa Neto comandava a definição de emendas parlamentares utilizando uma rede de assessores ligados às lideranças partidárias na Câmara dos Deputados.
O político burlou a Constituição que reserva exclusivamente a deputados e senadores a prerrogativa de apresentar emendas ao Orçamento. O presidente do PL exercia, na prática, essa atribuição.
As investigações mostram que três servidores da Câmara operavam o esquema criminoso: Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, ex-assessora do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL); Garigham Amarante, servidor da liderança do PL; e Nara Brum, assessora da liderança do PL. Na decisão, Flávio Dino afirma que os três atuavam como “longa manus” de Valdemar Costa Neto, isto é, executavam ordens do dirigente partidário.
Planilhas encontradas no celular de Mariângela Fialek mostraram o que a PF chama de “arranjo decisório paralelo” para a destinação das verbas. De acordo com os investigadores, Valdemar, mesmo sem exercer mandato, teria poder para definir valores, áreas e municípios beneficiados por emendas.
Nesse esquema, servidores da Câmara seriam responsáveis por organizar as indicações. Para dar aparência de legalidade ao procedimento, deputados federais teriam sido registrados como solicitantes das verbas, embora as indicações partissem, segundo a PF, do presidente do PL.










