Uma das principais condições para “abrandar” as tarifas seria a interrupção dos investimentos chineses no país e a abertura desmedida aos interesses estratégicos norte-americanos, principalmente em terras raras e minerais críticos, e mercado digital
Na nota em que o governo brasileiro condena o “novo” tarifaço trumpista, informa-se, mais uma vez, aquilo que já é de amplo conhecimento, inclusive do governo norte-americano: os EUA acumularam, nos últimos 15 anos, US$ 424 bilhões em superávit de bens e serviços na balança comercial com o Brasil.
Somente em 2025, último ano em que se concluiu os dados estatísticos, 76% das importações originárias dos EUA entraram no país sem pagar imposto de importação, sendo que a alíquota média efetivamente aplicada sobre produtos de origem americana foi de apenas 3,1%.
Diante dessa realidade, pergunta-se: qual o real motivo, então, para o governo da decadente economia americana escalar medidas drásticas contra as importações brasileiras?
O jornalista Jamil Chade acaba de revelar no ICL Notícias documento encaminhado pelo governo de Trump em que exige que o Brasil interrompa investimentos chineses no setor de terras raras e minérios e promova, de forma plena, a abertura do mercado nacional para bens americanos. Tal medida seria a moeda de troca para que a Casa Branca não escalasse as “novas” tarifas contra o Brasil.
Na prática, a atual gestão norte-americana exige a capitulação do país e de diversos setores de sua economia para que o governo dos EUA abrandasse as taxações sobre os produtos brasileiros.
Além disso, o governo de Trump exigia que as políticas na área digital adotadas pelo Brasil se subordinassem, antes de adotadas, ao crivo das megacorporações norte-americanas do setor que, aliás, sempre é bom lembrar, destinaram bilhões de dólares para a campanha do atual inquilino da Casa Branca.
Mas a chantagem exigia, também, compromissos radicais do governo Lula em alguns outros segmentos como plataformas, carros e produtos industriais.
Na prática, o governo Trump exigia o alinhamento cego e automático do Brasil aos interesses putrefatos da Casa Branca ou seria alvo de punição, como foi com a adoção do tarifaço linear de 25% sobre vários produtos brasileiros, com base na esdrúxula Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
Mesmo assim, Rubio, o apoplético secretário de Estado Marco Rubio, amigo do clã Bolsonaro, veio à público afirmar, cinicamente, que o governo Lula não estava agindo de “boa fé” nas negociações em torno das tarifas.
Internamente, figuras menores da indústria nacional como Paulo Skaf, embora na presidência, hoje, da toda poderosa Fiesp, chegaram a afirmar que as novas tarifas impostas ao Brasil eram de responsabilidade do governo Lula, numa flagrante demonstração, isto sim, de má-fé e irresponsabilidade diante dos fatos sobejamente conhecidos pelos brasileiros.
Outro porta-voz da diplomacia subserviente, Roberto Azevedo, ex-diretor-geral da OMC, também acusou o governo brasileiro de adotar um tom de confronto e uma postura eleitoreira na defesa da soberania nacional. Tomado pelo vira-latismo, Azevedo preferiu atacar Lula, aliviando o bolsonarismo, cujo candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, decadente nas pesquisas, muito recentemente, foi à Washington suplicar à Trump a adoção de tarifas contra o Brasil, mas somente depois das eleições de outubro. Nisso, Azevedo não viu nenhuma atitude eleitoreira, muito menos capitulacionista. Compreensível, afinal, sua carreira, ao longo de décadas, esmerou-se na subordinação ao império do norte.
No texto do documento publicado pelo ICL, o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirma que recebeu a proposta do Brasil sobre comércio – na forma de um rascunho de Declaração Conjunta, no início de novembro de 2025, mas, desde aquela época, rejeitou as sugestões pois elas implicavam na defesa da soberania nacional em diversos temas de interesse dos EUA.
“Estou desapontado que não tenhamos chegado mais perto, a despeito das nossas várias interações. Eu enfatizo que nos falamos múltiplas vezes, incluindo discussões iniciais em março, e outras em outubro e novembro depois dos avanços feitos pelos nossos líderes”, disse o embaixador, em 9 de janeiro de 2026.
“Meu time também discutiu prioridades dos EUA com contrapartes deles ao longo desse período, destacando as tarifas altas do Brasil em etanol e outros produtos, barreiras não-tarifárias, medidas de comércio digital e outras práticas injustas que limitam nossa relação econômica”, continuou.
“Como eu e meu time comunicamos verbalmente nessas várias ocasiões, nossa política não irá mudar sem melhoria significativa de acesso ao mercado e de proteção para os negócios dos EUA”, ameaçou.
O desapontamento de Greer e seu “time” é com a defesa enfática por parte do governo Lula da soberania brasileira em algumas questões de interesse estratégico do governo Trump, o motivo central que provocou o novo tarifaço. Segundo ele, a proposta do Brasil não atende à gama de preocupações dos EUA.
E acrescenta, seguindo a mesma linha de chantagem:
“Nós avançamos unilateralmente para reduzir tarifas sobre certas importações chave do Brasil com Ordem Executiva do Presidente Trump de 20 de novembro de 2025. No contexto de potencial futura negociação, eu convido o Brasil a dar os passos necessários para endereçar as preocupações dos EUA como uma demonstração de boa vontade para recomeçar uma discussão comercial abrangente”.
Na carta de três páginas, os EUA sugerem um acordo-quadro interino que contempla a redução de tarifas em troca da eliminação de tarifas e barreiras não-tarifárias específicas que mantêm empresas americanas fora do mercado brasileiro e prejudicam o ambiente no Brasil para comércio digital.
Agora compreende-se o motivo que levou Flávio, o “01” de Bolsonaro, à Casa Branca em sua última visita à Trump: dizer ao mandatário que, eleito presidente do Brasil, se submeterá às condições impostas pelos EUA, mesmo que elas representem, como representam, uma agressão descomunal aos interesses estratégicos do país.
Também nenhuma novidade, afinal, nunca é demais repetir que o objetivo – cada vez mais manifesto – do bolsonarismo é transformar o Brasil no 51º estado norte-americano e o Palácio do Planalto numa sucursal da Casa Branca.
Conheça os termos da chantagem trumpista nos vários setores da economia nacional que, rechaçados pelo governo brasileiro, provocaram o “novo” tarifaço:
AGRICULTURA/TARIFAS
Eliminar tarifas sobre etanol dos EUA;
Comprometer-se a não restringir o acesso ao mercado para os EUA em razão do mero uso de certos termos para carne e queijo;
Estabelecer, com o USTR, um grupo de trabalho sob o ATEC para discutir estabilidade no comércio global de produtos agrícolas.
COMÉRCIO DIGITAL
Apoiar a adoção multilateral de uma moratória permanente de tarifas aduaneiras sobre transmissões eletrônicas na OMC imediatamente e sem condições;
Garantir tratamento justo para empresas dos EUA com relação a medidas relacionadas a concorrência e sua aplicação no setor digital, incluindo consultas aos atores relevantes no desenvolvimento de novas medidas;
Garantir que medidas relacionadas a conteúdo de mídias sociais e a aplicação de tais medidas sejam justas para os fornecedores de serviços digitais dos EUA.
INDUSTRIAL
Eliminar tarifas sobre bens industriais dos EUA, incluindo químicos, veículos e autopartes, produtos médicos e frutos do mar;
Aceitar a importação de veículos produzidos nos EUA que sigam as Normas Federais de Segurança de Veículos Motorizados dos EUA;
Aceitar certificados eletrônicos e autorização prévia de comercialização do FDA (Food and Drug Administration dos EUA) para dispositivos médicos e produtos farmacêuticos produzidos nos EUA sem exigências adicionais.
MINERAIS CRÍTICOS
Adotar medidas que limitem investimentos por atores não-orientados pelo mercado e entidades estrangeiras de preocupação nos setores de mineração, refino e outros setores industriais críticos, (atores não orientados pelo mercado é a forma pela qual o governo norte-americano se refere aos chineses, sem citá-los);
Revisar a venda da operação de níquel da Anglo-American e garantir um processo justo para empresas dos EUA investirem no Brasil no setor de minerais críticos.
TECNOLOGIA SEGURA
Endereçar riscos de segurança com respeito à tecnologia de comunicações, serviços públicos, infraestrutura e equipamentos de inspeção de segurança.
AEROESPACIAL
Remover todas a tarifas e barreiras não-tarifárias sobre a venda de jatos comerciais dos EUA no Brasil.
TRABALHO
Propor legislação para proibir a importação de bens produzidos por trabalho forçado ou compulsório.
AÇÕES PROPOSTAS PARA OS EUA
Reduzir a tarifa aplicada a produtos do Brasil incluídos na Ordem Executiva 14.323 de 30 de julho para [XX] porcento ad valorem para os seguintes produtos.
MARCO CAMPANELLA










